Pois bem, depois de tanto tempo, não posso mais adiar. Izabel, desculpe a demora, é que eu sou "meio" preguiçoso mesmo. Finalmente vou escrever um pouco sobre como a minha história e a história da Natação no Mar em Rio das Ostras se encontram.
No ano de 2002 (eu acho!) coloquei meus filhos na escolinha de surf do Neves Surf Club, com o José Carlos, o Lee (pai e irmão do Léo Neves) e com a Marina (a nossa Tia Marina da Natação no Mar). Nessa época nós morávamos em Aquários, no Distrito de Tamoios, Cabo Frio, na Rua do Hospital de Tamoios, bem de frente pro mar. E de vez em quando, eu me atrevia a levar as crianças para pegar umas marolinhas. Levava um de cada vez no "fundinho" onde eu desse pé, esperava uma onda e empurrava para que eles remassem até a praia. Numa dessas, quando a minha filha saiu remando eu tentei sair também e não consegui. Falei pra eles ficarem na areia e não entrarem mais, mas eu NÃO CONSEGUI VOLTAR, caí numa vala.
Não sei ao certo quanto tempo se passou, mas foram os minutos mais longos e mais difíceis da minha vida. Enquanto eu tentava me manter flutuando, olhava minha casa ficando cada vez menor, e via meus filhos correndo para um lado para outro sem saber o que fazer. Sofri. Enquanto ia me afastando, meus olhos buscavam uma possibilidade de socorro. Não havia. A praia estava vazia. Uma senhora sentada em sua cadeira de praia próxima às crianças não teve presença de espírito sequer para socorrer meus filhos aflitos e assustados. Não havia guarda-vidas, surfistas, banhistas, nada, ninguém, somente duas crianças prestes a ficar órfãs.
Cansei. Tive medo. Tive certeza que meus dias haviam chegado ao fim. Sofria pela possibilidade de proporcionar essa triste experiência aos meus filhos. Por certo carregariam para sempre a culpa de não terem conseguido salvar o pai da morte por afogamento.
Enquanto meu corpo se entregava ao cansaço, entre uma onda outra, bebia muita água. Rezei. Me conformei, mas ainda assim tentei um último apelo. _ Deus, por favor, se está na minha hora, tudo bem, eu aceito, mas eu não gostaria que fosse dessa forma. _ Iemanjá, por favor não me leve ainda. Pedi, mas no fundo não acreditei muito. A minha razão atestava que o socorro era impossível. Veio uma forte onda e bateu na minha cabeça. Afundei. Bebi mais água. Pensei, agora mesmo é que não vou conseguir aguentar mais tempo. Outra onda. Outro tapa na minha cabeça.
Toquei o fundo, senti meus pés na areia. Parecia impossível. Houve uma ponta de esperança, mas a praia ainda estava tão longe, tão longe. E minhas pernas já não me obedeciam, não conseguiam sustentar meu corpo de pé. As ondas é que me empurravam de volta para a praia, para casa, para meus filhos, para minha mulher, para minha vida. Minha filha finalmente decidiu entrar em casa e falar com a mãe. Quando minha esposa chegou à praia não entendeu bem o que estava acontecendo e começou a "brigar" comigo, dizendo coisas que eu nem entendia. Eu apenas gritava quase sem voz em reposta: _ Eu estou morrendo p...!
Me recusei a ir para o hospital. Fui levado para casa com ajuda de uns meninos que apareceram na hora. Depois de um chuveiro quente, alguns minutos (talvez uma ou duas horas) de sono, vomitei muita água verde. Levantei, olhei para minha casa, meu fuscão azul na garagem, meus filhos, minha esposa, e chorei. Pensei que a esta hora eu não estaria mais ali.
Cerca de cinco anos depois, não me lembro como, acho que li algo no jornal sobre uma aula de natação no mar e fui até a Boca da Barra. Olhei os alunos, os professores, e desejei participar daquilo. Timidamente perguntei como fazer. Gentilmente, a Tia Flávia me fez algumas perguntas e me inscreveu numa lista de espera. Passado algum tempo, talvez uns seis meses ou mais, recebi uma ligação me perguntando se ainda estaria interessado em fazer as aulas de natação no mar. _Claro! Respondi. Nem me lembrava mais que estava na lista de espera.
E assim começou o processo do meu resgate, do meu salvamento. As primeiras aulas foram muito difíceis, mas a sensibilidade e o bom humor do Tio Fabiano foram fundamentais. Aprendi a soprar o bolão com o nariz, soltar o melecão, fazer a respiração do pintinho, o mergulho da Free Wily. As aulas em forma de brincadeiras na água com os colegas iniciantes foram aos poucos me permitindo relaxar, desde que eu pudesse manter os meus pés no chão e sentir o fundo. A minha primeira prova de fogo foi no primeiro aulão do pijama. Separados os dois grupos, a Izabel perguntou quem tinha medo de ir no fundo. _Eu! Claro. Aliás, medo não. Pavor, pânico. Então ela disse que os colegas teriam a missão de me levar boiando até o barco que flutuava a uns quarenta metros de distância no máximo. Gelei! Comecei a tremer. _Não vai dar! Logo formou-se uma multidão em volta de mim. Lembro da Tia Bia me falando ao ouvido: "_Não tenha medo, eu vou cuidar de você." Depois de muito xilique, conseguiram me colocar boiando de braços abertos, mas meu corpo insistia em tremer descontroladamente. E eu chorava! Lembro de sentir as mãos da Nancy quase me furando com os dedos numa massagem de shiatsu na planta dos meus pés, e a voz da Tia Bia repetindo: "_Não tenha medo, eu vou cuidar de você." É lógico que eu não consegui chegar até o barco. Me levaram de volta para a praia e eu chorei. Chorei muito! Todos me abraçavam e me confortavam. Pela primeira vez eu me senti sendo resgatado, salvo enfim! Cinco anos depois os meus salvadores chegaram! Foi uma experiência muito intensa. Por mais que eu tente, as palavras nunca vão conseguir expressar a grande emoção que senti. Uma emoção confusa, um misto de medo e de alívio. O meu salvamento começou com a inscrição do meu nome na lista de espera, e foi acontecendo, na primeira aula, no aulão do pijama, na primeira vez que atravessei a pedra, nadando, tremendo e chorando, mesmo com dois padrinhos, no primeiro Festival de Travessias que participei, novamente nadando, tremendo e chorando, com dois padrinhos, e ganhei até medalha. No meu processo de salvamento aprendi a dançar a melô do síndico, "TIM MAIA!", aprendi que "ao meu lado há um amigo que eu preciso proteger" e que "juntos somos fortes, somos fortes, somos fortes!". Aprendi que ter medo faz parte da vida, assim como morrer, até mesmo morrer afogado, e quem sabe, como diz Dorival Caymmi, seja realmente doce morrer no mar. Mas que o importante mesmo é VIVER, e viver bem é fazer amigos, é superar o medo, superar as limitações, é acreditar que é possível, é dividir para poder somar.
Esta postagem ficou enorme! E eu nem consegui dizer tudo o que há para ser dito. Mas fica aqui o registro público da minha enorme GRATIDÃO a todos que fazem parte da NATAÇÃO NO MAR, especialmente a IZABEL THOMAS, por continuar acreditando em mim e mantendo as portas abertas mesmo quando sou eu quem as fecha. A cada professor com quem tive a oportunidade de aprender um pouco mais, tio FABIANO, tio BRENO, tia FLÁVIA, tia PAULA, tio FELIPE, e atual tia MARINA, o meu MUITO OBRIGADO!!! Do fundo do coração. A toda equipe, professores auxiliares, secretária, guarda-vidas e aos meus colegas alunos e atletas da NATAÇÃO NO MAR, PARABÉNS!!! O trabalho de vocês salvou a minha vida.